#Cobertura Ringo Starr
Texto: Bárbara de Alencar
A beatlemania pode ter atravessado gerações, mas não resistiu ao alto preço dos ingressos da primeira apresentação de Ringo Starr e sua All Star Band em Brasília. Com as entradas mais caras da turnê no país, chegando até R$ 900,00, o show, realizado nesta sexta-feira (18), contou com a presença de aproximadamente 2,8 mil pessoas e teve várias poltronas do auditório do Centro de Convenções vazias. O espetáculo não causou a tradicional histeria coletiva que o fabfour incitava por onde passava, mas teve direito à tietagem de praxe, com uma fã ensandecida invadindo o palco e sendo contida pelo segurança em uma espécie de “mata-leão” delicado.
Apesar do custo financeiro, às 20h, já era possível avistar uma pequena fila de admiradores ansiosos para ver de perto um dos famosos garotos de Liverpool, entre eles, uma mulher portando um cartaz com os dizeres “Ringo, última chance. Case comigo” (escrito em inglês). A pontualidade britânica o beatle deixou na Inglaterra. O show, marcado para as 22h, começou com seis minutos de atraso. Aos primeiros acordes de It Don’t Come Easy, música que abre o setlist utilizado na turnê, o público levantou-se das cadeiras e foi para perto do palco dançar. Nessa hora, já não importava quanto se pagou para estar ali, todos foram para a grade que separa o palco do auditório.
Ao longo do show, Ringo esbanjou simpatia. Conversou com os fãs e elogiou a cidade. “Eu te amo, Ringo”, gritou, em inglês um fã na plateia. “I Love you, deep voice”, respondeu o baterista.
O repertório não trouxe novidades. Ringo se revezava entre a bateria e o microfone. Quem esperava um revival do iê-iê-iê, contentou-se com apenas quatro músicas que ficaram famosas na voz do beatle engraçado: I Wanna Be Your Man, Boys, Yellow Submarine e With a Little Help from My Friends, canção que emendou com Give Peace a Chance, de John Lennon. Da carreira solo, o baterista trouxe alguns sucessos antigos, como Photograph, e outros do novo seu álbum mais recente, como The Other Side of Liverpool.
Além de algumas músicas do astro principal, o setlist também proporcionava uma viagem pelo rock setentista, com direito a clássicos que não faltam nas programações flashback, como Dream Weaver, de Gary Wright, Talking in your sleep, da banda The Romantics, e Broken wings, do grupo Mr. Mister.
Formada pelo guitarrista Rick Derringer, pelo vocalista e baixista Richard Page, pelo vocalista e guitarrista Wally Palmer, pelo multi-instrumentista Edgar Winter, pelo tecladista Gary Wright e pelo baterista Gregg Bissonette, a All Star Band se encarregou de levar vários sucessos de ex-grupos de seus integrantes. Derringer foi o primeiro a substituir Ringo nos vocais, com o hit dos The McCoys: Hang on sloopy, que na jovem guarda ganhou letra em português e virou a Pobre menina, de Leno & Lilian.
O clima no auditório era de saudosismo e paz e amor, símbolo que o beatle ostentava em sua camisa. No palco, nada de pirotecnia ou super produção. A decoração era singela, com um painel com desenhos de flores e projeções de mandalas em luz. Cartazes com declarações de amor e pedidos de abraços podiam ser vistos na plateia. Na arquibancada superior, a maior participação do público foi durante a música Yellow Submarine, quando todos se levantaram e agitaram balões amarelos.
Após 1h40 de show, Ringo encerrou o evento com With a Little Help from My Friends e Give Peace a Chance. Para a surpresa de muitos, a banda saiu sem voltar para bis.
Para o servidor público Gabriel Silveira, 35 anos, que esperava ansiosamente o bis, o show saiu “melhor que a encomenda”. Desde os 10 anos de idade, ele ouve Beatles. Acompanhado da esposa, a jornalista Tatiana Silveira, 32 anos, grávida de cinco meses, ele revela : “Foi no show do Paul McCartney que decidimos ter um filho”.
Na opinião do comerciante João Strapassan, 58 anos, a experiência foi sensacional. Foi a primeira vez que viu Ringo Starr, mas já havia presenciado apresentações do Paul MacCartney. “Ele é novo, moderno. Eu diria que é um beatle de 35 anos. Paul é mais pirotécnico, mais caro. Ringo é alegre e a banda e espetacular”, afirma ele, que estava acompanhado do filho de 16 anos. “Ele ouvia Beatles na barriga da mãe”, confessa o pai coruja e orgulhoso de ter apresentado um beatle vivo ao seu discípulo do rock.
Entretanto, a ausência de mais músicas do fabfour e a constante sensação de ter entrado em um túnel do tempo de rádios flashback não agradou a todos. Na avaliação do jornalista Allan Kardec Pimentel, 62 anos, a apresentação de um beatle “devia ir um pouco mais longe. Achava que os shows deviam ter uma musicalidade especial”. Segundo ele, foi sua filha de 14 anos que o levou para o show.
Para Eurípedes Lemos, empresário de 55 anos, o show ficou abaixo da expectativa. Ele foi acompanhado da esposa, Ana Lemos, 48 anos, que não apreciou o troca-troca no palco. “ Ele não faz nada. Achei que a banda é o show. Eu estava esperando um show dele, mas nem as músicas boas ele cantava”, indignou-se.
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