Vladimir Carvalho
Texto: Bárbara de Alencar
"O Dziga Vertov da caatinga, o Roberto Rosselini dos sertões". Assim, como definiu o cineasta Glauber Rocha, é Vladimir Carvalho. Paraibano do município de Itabaiana, esse jovem de 76 anos consagrou-se como um dos documentaristas mais importantes do país. Dono de uma filmografia que inclui 23 títulos e vários prêmios, ele permanece na ativa com espírito e empolgação de um diretor estreante, porém, com a experiência de quem, há cinco décadas, dedica-se ao cinema.
“Vamos resistir de pé”, disse Vladimir, representando a Associação dos Produtores e Realizadores de Filmes de Longa Metragem de Brasília (Aprocine), como resposta à posição unilateral tomada por parte do governo para implantar mudanças no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. E de resistência é permeado o seu trabalho, independentemente dos recursos financeiros ou situação política do país, um retrato do homem nordestino e da justiça social.
Ao longo de sua carreira, à ficção, sempre preferiu as questões relacionadas à sociedade. Sua primeira produção audiovisual foi como co-roteirista do seminal curta-metragem Aruanda (1960), de Linduarte Noronha, um dos documentários que marcaram o início do Cinema Novo. A película traz o cotidiano de uma comunidade de negros, isolada na Serra do Talhado, na Paraíba, fundada em meados do século passado por um ex-escravo chamado Zé Bento. “A chamada realidade social é muito rica em diversos aspectos que até superam, às vezes, em dramaticidade, a ficção. Isso foi essencial para me definir pelo documentário”, explica.
Antes de partir para as grandes telas, era como colaborador de jornal que Carvalho ganhava a vida, escrevendo sobre algo que muito sabia: filmes. Cineclubista, teve nesse espaço o ambiente propício para o início de seu relacionamento frutífero com a sétima arte. “Costumo dizer que eu era comunista de dia e católico apostólico de noite, por causa do cinema“, confessa ele, em tom de brincadeira, pois em João Pessoa, na época, a projeção era feita por padres, em igrejas.
Segundo o documentarista, que recebeu seu nome em homenagem ao russo Vladimir Lenin, um dos ídolos de seu pai, a influência do cinema americano e do star system de Hollywood, com os musicais, faroestes e gângsters, foi grande.Outra vertente que também apreciava era o neo-realismo italiano, mas os títulos chegavam de uma forma retardatária.
Certa vez, conta o cineasta, chegou a cidade Jonald, um crítico carioca que apareceu com dez títulos de clássicos e antologias do cinema mundial, que mudaram os rumos da vida de Vladimir dali por diante. Entre eles, o Homem de Aran, de Robert Flaherty. “Eu nunca tinha visto um documentário de longa metragem. Esse filme me deixou pasmo. Como que no meio de tudo aquilo que eu assistia, existia um filme que não tinha nem atores, nem enredo, nenhuma preparação de estúdio, tudo feito ao ar livre, e, no entanto, era um filme que nos fascinava?”, indagou-se. E, assim, começou a paixão pela arte de documentar.
Apesar de seu dom com as câmeras, Carvalho graduou-se em Filosofia, na Universidade Federal da Bahia, após as filmagens de Aruanda e Romeiros da Guia (1962), dirigido por ele e João Ramiro. Lá, teve contato com importantes contribuintes da cultura brasileira, como Caetano Veloso, Torquato Neto e Glauber Rocha, que estava preparando Deus e o Diabo na Terra do Sol. Em Salvador, o cineasta também entrou para as fileiras da militância político-cultural no Centro Popular de Cultura (CPC), entidade vinculada à União Nacional dos Estudantes.
A relação com a capital federal começa em 1969, quando veio apresentar o curta-metragem A Bolandeira no FBCB. Durante esse período, reencontrou o colega de profissão Fernando Duarte, companheiro das filmagens de Cabra Marcado para Morrer (1984), dirigido por Eduardo Coutinho. Duarte o convida para ficar em Brasília a fim de realizar o projeto do núcleo de produção de documentários do Centro Oeste, na UnB. A partir de então, vive há mais de 40 anos na cidade e não pretende sair. Recentemente, finalizou o documentário Rock Brasília – Era de Ouro, uma ideia germinada em 1987, ainda quando mestrava aulas de cinema na universidade.
Saiba mais sobre a história desse expoente cultural em nossa Galeria e Imagens.
Fotos: Cícero Júio
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