Candango! - Érika Bauer

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Érika Bauer

Texto: Bárbara de Alencar

Uma câmera como testemunha e a sétima arte como bandeira. Assim, Érika Bauer retoma a tradição de um cinema mais politizado. À filmes de ficção para puro entretenimento, ela prefere buscar na realidade a inspiração para seus projetos. "Mais do que os homens são as ideias que os homens trazem", costuma dizer.

Em seus últimos trabalhos, os longas-metragens E o Tempo se Fez Verbo (2011) e Dom Hélder Câmara – O Santo Rebelde (2006) , a documentarista revisita a luta pelos direitos humanos de dois grandes personagens da história brasileira: Dom Helder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga, ambos bispos com atuações decisivas no combate à ditadura militar instaurada em 1964.

Mineira de 48 anos, nascida em Belo Horizonte, Bauer despertou para o cinema após assistir o longa-metragem de Bernardo Bertolucci 1900 (Novecento, 1976), uma produção que tornou-se um épico aclamado no mundo inteiro, sendo considerada pela crítica internacional uma das principais obras do italiano. Admiradora, também, dos trabalhos da cineasta e roteirista belga Agnès Varda, Érika estreou como contuísta e assistente de direção nos sets de filmagem em 1984, no longa-metragem Noites do Sertão, de Carlos Aberto Prates Correa. “Aí, caí no caldeirão de Guimarães Rosa”, diz ela sobre a experiência de trabalhar em uma adaptação cinematográfica de uma obra do célebre escritor.

À época, não havia muitas mulheres nesse circuito. Hoje, mais de duas décadas depois de sua primeira produção, a situação feminina na sociedade melhorou, mas ela ainda continua como uma das poucas representantes do gênero nos bastidores do cinema brasileiro. “Tem muita mulher pegando a câmera e fazendo, mas é muito esporádico. Hoje, você tem uns nomes como Silvio Tendler, João Moreira Sales, Eduardo Coutinho, mas me fala uma mulher. É difícil você puxar. Então, foi assim que eu cresci e que amadureci, dentro desse universo masculino”, conta.

Na capital federal, chegou há 15 anos, com espírito de guerreira. Com uma filha a tira-colo, iniciou na cidade um novo desafio: dar aulas na Universidade de Brasília. Segundo a diretora, ensinar não estava em seus planos. Em sua vida profissional, a documentarista era mais voltada para a realização. Filha de pai mineiro e mãe alemã, Érika formou-se em cinema em Munique, na Alemanha, e acumulava no currículo diversos curtas premiados. A paixão pelo quadro negro foi chegando aos poucos, a medida que dava aula. “Na verdade, estava no meu mapa astral”, revela em meio a risos.

Escorpiana e supersticiosa, a professora não se considera religiosa. “Me interesso por todos os temas que falam do homem, da espiritualidade, de temas que transcendem. Se tiver um ritual bonito em uma igreja ou em um centro espírita, eu vou”, afirma. Na escolha de seus personagens, o critério utilizado é “menos igreja, muito mais direitos humanos”.

Para produzir seu mais recente filme, ela passou mais de três anos para convencer Dom Pedro Casaldáliga a aceitar ser personagem. Bauer o conheceu enquanto fazia seu primeiro longa-metragem, quando o entrevistou sobre Dom Helder Câmara. Para o Bispo, de acordo com a diretora, o que importava eram as causas e não a pessoa dele. “Ele me chamava de teimosa impertinente e eu chamava ele de teimoso impertinente. Até que entendi. Fui atrás das pessoas que viveram as causas. Então, para mim, foi um filme que me ensinou muito a ser humilde”, explica.

Na opinião de Érika, o grande desafio hoje é achar temas válidos para se aprofundar e registrar, encontrar algo que te atraia dentro da realidade, como diz. “Hoje, o cotidiano massacra. Você acorda e, agora, o que vou fazer? Cadê? Cadê as bandeiras, cadê as pessoas disponíveis para fazer alguma coisa, cadê a política, um nome de referência na política? Não tem. Está tudo muito superficial. Nada se aprofunda. Tem tanta virtualidade que o real fica um pouco opaco”, reflete.

Para o futuro, ela tem dois filmes engatilhados: um longa sobre o poeta Alceu Amoroso Lima, conhecido como Tristão de Ataíde, e uma ficção sobre mulheres. Entretanto, como boa documentarista que é, o longa sobre o “sexo frágil” será permeado por histórias e personagens reais.

Duas perguntas para Érika:

Candango! - Qual a sua avaliação sobra a atual conjuntura do cinema brasileiro?

Bauer - O cinema tá bem melhor, mais investimento, mais produções. Existe o pequeno cinema que com ele eu me preocupo. O cinema de mercado hoje tá bem, tá andando muito bem. Existe investimento, BNDES, ELETROBRAS, Petrobras, Paulínea. São grandes editais propiciando maiores chances para o cinema brasileiro de mercado. A minha preocupação é a sustentabilidade do pequeno cinema, o cinema de intimidade, o cinema de autor. Você tem cineastas, hoje, que estão fazendo filmes muito especiais, muito diferenciadas, mas me preocupo com a continuidade disso. Porque os editais não visam esse cinema, visam atores consagrados, diretores que já tenham bilheteria. Então, isso pode deixar muito pouco espaço para o pequeno cinema e para o documentário também.

Candango! – E o brasiliense?

Bauer - O que você tem aqui de estímulo? O FAC. E, a cada ano, tem novos critérios, com uma prestação de contas muitas vezes complicada. Prestação de Contas é o filme e não tanta burocracia. OFAC virou a única fonte do artista em Brasília. Pro artista plástico, pro músico. Então, fica a classe brigando entre si sobre porcentagem. Então, cada um tem que ter seu espaço. O edital do pólo de cinema podia sair. Essa é a grande questão. Como é que você fala de cinema em Brasília se falta investimento? Prefiro nem falar. Só podemos falar de cinema quando temos um olhar político para ele.

Fotos: Arquivo pessoal/ Érika Bauer