Tudo pelo poder
Texto: Cleuber Nunes
No marketing atribui-se a terminologia ‘gap positivo’ aos produtos – ou serviços – que o público imbui valores superiores aos reais. Na indústria cinematográfica, por exemplo, o canastrão George Clooney conquistou a imagem cool ao desventurar atrás das câmaras, com um trabalho aquém do projetado.
De fato, como ator é um ótimo diretor. Entretanto, a indicação de “Tudo pelo poder” ao Globo de Ouro, premiação que antecede o Oscar, é inverossímil, a não ser que seja uma ação mercadológica para inflar ainda mais seu gap, ou melhor, ego.
O filme conta a história de Stephen Myers (Ryan Gosling), um idealista membro do staff do candidato à presidência Mike Morris (Clooney), que descobre as sujeiras em torno da corrida pela Casa Branca. Diante da verdade, questiona a permanência na promissora campanha.
Adaptada da peça “Farragut North”, de Beau Willimon, a trama mantém alguns elementos do thriller na primeira metade. O espectador fica ansioso pela anunciada reviravolta, que, por sinal, não acontece. Um telefonema entrega o desfecho no início do conflito.
O trabalho artístico também é acometido pela direção. Philip Seymour Hoffman e Paul Giamatti aparecem em atuações comedidas, enquanto os protagonistas são inexpressivos. Clooney, com o avançar da idade, parece treinar um sucessor. Gosling é um forte candidato. Os diálogos com o mestre parecem um jogral. Apenas Marisa Tomei, no papel de uma dissimulada repórter, convence em cena.
Há somente uma cura ao narcisismo do galã de meia-idade: o retorno para os corredores do “ER” (no Brasil, “Plantão médico”), mas para a cadeira de paciente.
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