O Artista
Texto: Cleuber Nunes
A França é o berço do sétima arte. A primeira exibição pública de um filme ocorreu em Paris, no ano de 1895. Os irmãos Louis e Auguste Lumière apresentaram cenas simples de ação, sem nenhuma narrativa. Pouco tempo depois, convencido dos valores mercadológicos do cinema, o também francês George Méliès transformou os sonhos das pessoas em imagens animadas, criando as primeiras obras com histórias.
Entretanto, com a interrupção da produção cinematográfica europeia durante a Primeira Guerra Mundial (1914/1918), o trabalho concentrou-se do outro lado do Atlântico, em Hollywood, onde surgiram os primeiros grandes estúdios, consagrados no final dos anos 20, em virtude do advento do som.
A transição pegou muita gente de surpresa, especialmente os atores que estavam despreparados para os talkies (gíria para filmes falados). É nesse período, de 1927 a 1932, que se passa O artista.
Na trama, o galã George Valentin (Jean Dujardin) é o tipo canastrão, amante latino à Rodolfo Valentino – declarada inspiração do ator – acostumado a abusar das expressões faciais para suprir a ausência de diálogos. Ele não acredita no fim do cinema mudo e, por força do orgulho, acaba defasado. Do outro lado, sua fã Peppy Miller (Bérénice Bejo), a quem ajudou nos primeiros passos atrás das câmaras, vira uma estrela do sonoro.
O artista é uma apurada homenagem à história da sétima arte. Até a janela da película foi pensada, tamanho 1,33:1, bitola padrão da época. A viagem no tempo inicia logo no prólogo, quando abrem as cortinas e uma orquestra acompanha as primeiras cenas. Como não havia áudio, era comum uma apresentação musical simultânea a projeção para compor o conjunto dramático.
Além disso, a produção funciona como uma crônica sobre o atual fazer cinematográfico, onde o avanço tecnológico subtrai o brio do roteiro e das interpretações. Dujardin e Bejo fazem a diferença e a simplicidade da narrativa toca até o espectador que nunca assistiu um filme mudo.
O cineasta Michel Hazanavicius (do pastelão “Agente 117”), até então desprezado pela crítica, surpreende com o comovente longa-metragem, elaborado para todos os públicos, porém obrigatório aos saudosistas.
Pesquise em Cinema
