|
Mensageiros da Morte
O nome não é fácil de guardar: Na Polícia e Nas Ruas. Por outro lado, o conteúdo, e principalmente as fotos deste novo jornal que circula pelo DF, são difíceis de esquecer. Cadáveres – a maioria de bandidos fotografados em close – desafiam o estômago dos leitores e colocam em xeque a ética do veículo. Assinado pelo repórter policial Sílvio Linhares e família (três filhos e esposa colaboram), o NPNR é a extensão impressa do programa de rádio homônimo que o jornalista transmite há cinco anos pela Rádio Atividade. A linha editorial, como o nome sugere, segue o rastro de sangue deixado pela violência no Distrito Federal.
O NPNR é semanal. Toda terça feira está nas bancas e em pontos estratégicos da cidade, como a Rodoviária, onde estão espalhados quatro gazeteiros para atender a grande demanda de público. Deize da Paz, uma dessas gazeteiras, afirma vender até 1200 exemplares num só dia. “No começo ficava incomodada de ficar olhando pra essas fotos o dia inteiro, mas depois me acostumei”, confessa. A tiragem do jornal é de 30 mil exemplares semanais. “Vendemos todos”, garante Linhares. O semanário está nas ruas desde outubro de 2005. Já passa da 15ª edição. Por enquanto, o lucro com as vendas mal dá para cobrir os gastos de produção. Por isso, explica o presidente e patrocinador do jornal, o preço subiu de R$ 0,50 para R$ 1.
Mas nem todo mundo parece animado com o periódico. O professor da UnB e estudioso da comunicação Luiz Martins não concorda com a exposição de cadáveres na mídia, e diz que “esse tipo de jornalismo sobrevive das desgraças de nossa sociedade”. Sílvio contra-argumenta lembrando o jargão que se usa no jornalismo de que “notícia boa não é notícia”. Para o presidente do NPNR, “o repórter, de qualquer área, aguarda sempre o pior, e isso não interfere no acontecimento”. O Código de Ética dos Jornalistas, na seção III, artigo 13, diz: “O jornalista deve evitar a divulgação de fatos (...) de caráter mórbido e contrário aos valores humanos”. Sílvio rebate: “A morte não pode ser mascarada, tem que ser apresentada como ela é. Eu não cometo crime, eu divulgo crime”. Luiz Martins afirma que o NPNR faz parte de um fenômeno antigo, conhecido no ramo como “penny press”, ou seja, a venda de sensacionalismo pelo menor preço possível. E atribui o sucesso da publicação à curiosidade mórbida das pessoas: “Sempre existiu uma demanda para o dramático, em nível patológico”.
A copeira Suelen de Oliveira, 20 anos, compra o NPNR “para ver a realidade que nenhum outro jornal mostra”. Moradora de Samambaia Norte, Suelen só ficou sabendo de morte por espancamento na própria quadra, depois de ter lido a notícia no tablóide. O advogado de 53 anos, Ribamar Araújo, não entende como o periódico pode vender tanto: “Estão se aproveitando da ignorância das pessoas e desviando a atenção do problema maior, que é a responsabilidade do governo”. A jornaleira Urânia, da Asa Norte, também reprova o jornal e o classifica como “nojento”. No entanto, Urânia reconhece: “Vendo muitos, principalmente para adolescentes”. Daniel Batista, 33, técnico de refrigeração, comprou o NPNR nº 15, em suas próprias palavras, “para ver a foto do cabra que matou minha prima”. Estava lá, na página cinco, a notícia e a foto de Zezé, preso pelo assassinato de Maria do Libramento. A morte da prima de Daniel também fora noticiada pelo NPNR, em dezembro. O técnico em refrigeração afirma não saber se sua família autorizou ou não a publicação da foto de Maria. Mas está certo de que a reportagem ajudou na captura do bandido.
Motivado pela intensa repercussão do NPNR ultimamente, o Candango resolveu acompanhar de perto o cotidiano da redação comandada por Sílvio Linhares. O dia escolhido não poderia ser de pior agouro: sexta-feira, 13 de janeiro. Clique aqui para conferir esta saga.
Texto: Santiago Dellape Colaboração: Lincoln Rabino
|
|