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grande circular
Boa vizinhança
Em qualquer lugar do Brasil, em qualquer cidade do mundo, parte do círculo de amizades que as pessoas cultivam provém do ambiente em que elas moram, o que se convencionou chamar de vizinhança. Em qualquer lugar, certo?, menos em Brasília. Eu nasci aqui e acho Brasília ótima, mas sinceramente não consigo entender esse fenômeno anti-vizinhança que acontece nesta cidade. Por que as pessoas daqui não conseguem ser amigas dos seus vizinhos?
Você, por exemplo. Você pede açúcar emprestado, oferece ajuda para levar as compras, fica de papo na porta de casa, como a gente vê acontecer aos montes quando visita outras cidades? Você sabe quando seu vizinho viaja, ele te pede para regar as plantinhas, dar comida para o cachorro, essas coisas? Ou melhor (sejamos mais superficiais): você sabe, pelo menos, no que é que trabalha esse cara que mora aí do seu lado?
Infelizmente, mas infelizmente mesmo, eu também respondo “não” para a maior parte dessas perguntas. Também acho esquisitíssimo, mas admito que em Brasília é mesmo assim. Tem até uma piadinha que diz que, antes de sair de casa, o brasiliense típico dá uma conferida para ver se o corredor está vazio, e assim evitar de dar “bom dia” pro vizinho. Exagero, claro, mas é surpreendente como que a gente realmente não mesmo vai muito além do “bom dia”. É “bom dia”, “tudo bem?”, e só.
Teorias meio conspiratórias explicam que os prédios do Plano Piloto foram construídos do jeito que são, divididos em diversas prumadas, com poucos apartamentos por andar, justamente para desagregar as pessoas, evitar a convivência. Como que pode isso, numa cidade que foi imaginada por um comunista confesso, que pregava a interação entre as pessoas? Que até inventou as tais unidades de vizinhança, para incentivar a interação das pessoas nas áreas próximas às moradias?
Seja lá como for, eu tendo a achar que essa dificuldade brasiliense está mesmo ligada à arquitetura da cidade, especificamente do Plano Piloto. Porque as outras cidades do DF, que têm mais cara de bairro, já funcionam de um jeito meio diferente. Uma vez fiz uma matéria sobre uma senhora, moradora de Taguatinga, que teve um ataque cardíaco por causa da vizinha – ou melhor, por causa da filha da vizinha. A senhora tinha ido visitar a amiga que morava ao lado quando chegou a notícia de que a menina tinha sofrido um acidente de carro. A mãe se abalou para o hospital, enquanto que a vizinha teve um treco ali mesmo. Sentiu o nível do envolvimento?
Eu já morei em cinco casas diferentes aqui em Brasília, na Asa Sul, no Sudoeste e no Lago Sul, e nunca experimentei uma amizade forte assim com nenhum dos meus vizinhos. Quer dizer, nunca, não: quando eu era criança e morava na 204 Sul, eu tinha uma turma linda no meu andar – um grupinho de cinco meninas que passava as tardes no corredor e debaixo do bloco, brincando de escolinha, clubinho, fita e quatro-cantos. Nossos pais também se tornaram amigos e até hoje nós todos mantemos contato. Foi a única vez em que tive amigos-vizinhos – tudo graças àquela sociabilidade típica de quem tem menos de dez anos de idade.
Fiquei pensando que isso é sinal de que criança já nasceu sabendo fazer o que realmente importa na vida: amigos. Coisa que nós, brasilienses de nascimento ou de coração, estamos mesmo precisando reaprender.
Carol Nogueira é jornalista, brasiliense convicta e quer muito fazer amigos no prédio novo em que está morando. Ela escreve a coluna grande-circular quinzenalmente no Canal Brasília.
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E aí, beleza? A pé Metamorfose Ambulante Só repete evento quem quer Feriado é dia de vender
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